Mudar a forma de nascer em Portugal

"Precisamos mais do que nunca das energias do Amor. Todas as crenças e rituais que desafiem o instinto maternal protector e agressivo estão a perder as vantagens evolucionárias. Temos novos motivos para perturbar os processos fisiológicos o menos possível. Temos novos motivos para redescobrir as necessidades básicas das mulheres em trabalho de parto e dos bebés recém-nascidos"

Michel Odent


Desde há milhares de anos que o Ser Humano tem sabido reconhecer os seus processos fisiológicos e agir naturalmente, de acordo com a natureza, respondendo de forma harmoniosa aos apelos do seu corpo. À medida que o tempo foi passando, com a industrialização das nossas sociedades, em muitos aspectos extremamente positiva, o Homem foi-se afastando cada vez mais dessa sabedoria interior e procurando soluções externas que lhe trouxessem resposta às suas necessidades e inquietações - aos poucos foi-se esquecendo que a grande maioria dessas respostas estão em si próprio ou deixou simplesmente de saber escutar-se.

O nascimento humano não foi excepção, a sua evolução acompanhou as mudanças da sociedade e as Mulheres foram deixando de acreditar em si próprias e nos seus corpos, esquecendo-se de que parir é um acto natural, comum a todas as espécies. O nascimento industrializou-se e medicalizou-se de forma generalizada e desmedida, passando a ser visto como um processo demasiado arriscado e destinado a falhar, que só pode ser salvo pela intervenção de profissionais - a gravidez e o parto tornaram-se numa enfermidade!

As tecnologias aplicadas ao nascimento têm sofrido uma evolução extraordinária e já foram salvas muitas vidas, mas não podemos deixar de salientar que também já provocaram mortes pela má utilização que se faz delas em situações em que não se justificam, simplesmente porque não há tempo, não há disponibilidade e existe uma enorme necessidade de controlar o processo e intervir.

Existem cada vez mais estudos científicos e os resultados são cada vez mais unânimes e sólidos: a crescente adesão a este modelo tecnocrático traz consigo consequências evidentes, nomeadamente pelo acréscimo de riscos que a cesariana, exemplo máximo deste processo de industrialização do nascimento e cada vez mais comum nos nossos dias, representa para a saúde das Mulheres e dos bebés: índice acrescido de mortes maternas e fetais, maior incidência de infecções e complicações no pós-parto, experiências negativas de nascimento com taxas de depressão pós-parto mais elevadas, afastamento precoce da mãe e do bebé com consequências graves ao nível das taxas de sucesso de amamentação, aumento do número de recém-nascidos com problemas respiratórios e maior probabilidade de surgirem complicações em gravidezes posteriores, tanto para a mãe como para os bebés. Também em termos financeiros a industrialização do nascimento trouxe acréscimos brutais às despesas do estado, beneficiando apenas alguns profissionais de saúde que em hospitais privados lucram com o crescente número destas intervenções cirúrgicas.

Será que temos consciência da influência que as nossas acções de hoje podem ter para o futuro dos nossos filhos e netos? Será que podemos mudar o rumo actual do nascimento e reencontrar a confiança nas Mulheres, nos seus corpos, no parto como um processo natural, fisiológico e funcional? Será que é possível aproveitar os benefícios dos avanços tecnológicos, sem cair no erro de utilizá-los de forma rotineira e indiscriminada, potencialmente prejudicial? A resposta é um claríssimo SIM! A sociedade somos nós que a construímos e o destino somos nós que traçamos, devendo cada pessoa ser responsável pelos seus actos e responsabilizar-se pelas consequências. A HumPar - Associação Portuguesa pela Humanização do Parto (www.humpar.org) - tem como principal objectivo divulgar informação junto do público em geral e dos profissionais de saúde, sensibilizando-os para a necessidade de encarar o parto como um processo fisiológico natural em que a Mulher e o bebé assumem o papel principal, baseando toda a prática e intervenção nas evidências científicas mais actuais, proporcionando a todos uma experiência positiva que fique inscrita na memória do casal e da família como um dos momentos mais significativos das suas vidas e sirva de ponto de partida para uma maternidade tranquila e segura.

Para que estes objectivos possam ser alcançados, temos realizado diversas iniciativas como a organização de um congresso internacional, participação em programas de televisão e outros projectos jornalísticos, realização de reuniões com equipas dos serviços de Obstetrícia dos Hospitais, celebração de protocolos com entidades cujos fins vão de encontro aos nossos objectivos, participação em workshops, feiras e palestras dentro desta temática, organização de formações para doulas e técnicos de saúde de Hospitais e Maternidades, entre outras. De entre os objectivos gerais a que nos propomos, consideramos que é urgente:

Divulgar e verificar se são seguidas as recomendações da OMS no que diz respeito ao atendimento ao parto - a OMS definiu quais as práticas aconselhadas, aquelas que são prejudiciais e as que devem ser utilizadas apenas em casos específicos. No entanto, em Portugal e em muitos outros países, continuamos a assistir a um atendimento hospitalar quase totalmente alheado destas recomendações, com taxas elevadíssimas de intervenções desnecessárias e prejudiciais (http://www.humpar.org/recomendacoes_oms.htm).

Oferecer a todas as Mulheres, sem qualquer tipo de descriminação, informação actual com base em evidências científicas - cada Mulher tem direito a receber informação válida e pertinente, com base nas evidências científicas mais recentes, sobre tudo o que diz respeito à gravidez e parto, para que possa escolher de forma consciente e participar activamente nas decisões.

Respeitar os direitos e favorecer o papel de protagonistas da Mulher que vai parir e do bebé que vai nascer, possibilitando SEMPRE que desejem, a presença contínua do Pai ao longo de todo o parto - a humanização do nascimento baseia-se no respeito pelos direitos humanos - respeitar os direitos das mães, dos bebés, dos pais e das famílias é um princípio básico de um atendimento humanizado e deveria ser “receitado” por todos os profissionais de saúde nos locais onde se atendem grávidas e se assistem partos;

Optimizar e personalizar a forma de atendimento à gravidez, parto e nascimento, dignificando o momento e todos os envolvidos - as rotinas dos profissionais de saúde não podem servir de justificação para a forma por vezes indiferenciada e mecanizada como as parturientes são acompanhadas nos locais de atendimento. É necessário proteger a Mulher, tratá-la com dignidade, criar ambientes agradáveis em que ela se sinta amada, protegida, segura e acompanhada.

Fomentar a formação permanente dos profissionais de saúde com base em evidências científicas - as equipas de profissionais que acompanham nascimentos devem estar a par das evidências científicas mais actuais e basear a sua prática diária nesses dados e conhecimentos, devendo para isso organizar-se acções de formação periódicas.

Definir claramente em protocolos os critérios que servem de base às tomadas de decisão no que diz respeito a intervenções hospitalares - as taxas de intervenção, medicalização e cesariana diferem muito de instituição para instituição e até de equipa para equipa, o que revela uma grande subjectividade nas tomadas de decisão. Assim, é necessário constituir equipas multidisciplinares que incluam utentes dos serviços, de forma a estabelecer os protocolos de atendimento, com o objectivo de erradicar intervenções desnecessárias e cesarianas evitáveis.

Não podemos deixar de referir a influência que CADA MULHER pode ter na necessária e premente mudança de uma realidade que a todos diz respeito: é preciso que as Mulheres façam valer os seus direitos, que se informem devidamente e assumam o comando da sua gravidez e do parto, tomando decisões conscientes e informadas, questionando, sempre que necessário, recomendações e intervenções. É necessário que, quando se sentirem lesadas ou insatisfeitas, não fiquem de braços cruzados e denunciem as situações graves, que se associem e se juntem aos que procuram no dia a dia mudar o cenário, proporcionando vivências mais plenas e positivas, gerando seres mais saudáveis e possibilitando um início de vida mais dignificante.

Visite-nos em:
www.humpar.org


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Os workshops terão que ter um número mínimo de participantes de modo a avançar. Na eventualidade de não ser atingido o numero mínimo de inscrições o Centro Pré e Pós Parto reserva-se no direito de cancelar o Workshop.

Passatempo do Dia dos avós 03 Outubro
Maria Madalena Castanheira Piló
Sílvia Patrão Beliz Oliveira

É com muita honra que o Centro de Pré e Pós Parto recebe a HUMPAR para escrever a nossa dica do mês sobre a sua associação.
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