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Amamentação: a minha história

Sou mãe de duas meninas, de 1 e de 3 anos, a I. e a B.

Partilho a minha história e experiência de amamentação das minhas filhas, em particular a minha história com a B., com quem aprendi quase tudo o que sei nesta matéria, dando a conhecer às futuras e recém mamãs os desafios da amamentação com que me deparei, no intuito de deixar a todas a mensagem de que, se têm o desejo de amamentar os vossos bebés, procurem, perante a primeira dificuldade, por pequena que vos pareça, e desde o primeiro dia, o apoio de profissionais especializados em amamentação [no CPPP encontram vários], e vão seguramente consegui-lo, não obstante os obstáculos que vos apareçam. Digo-o, porque este apoio foi fundamental para mim.

Antes de mais, quero sublinhar que tudo o que aqui escrevo resulta apenas da minha experiência e procura de informação, enquanto mãe, e da partilha de experiências com outras mães.

Dito isto, recuo agora até outubro de 2015, o mês em que tive pela primeira vez nos braços a minha pequena B. Se durante a gravidez tinha planeado amamentar a minha bebé, embora sem me preocupar demasiado com o assunto, quando a vi pela primeira vez tive a certeza de que queria muito que assim acontecesse. Neste campo nada aconteceu como imaginava, mas ficaram-me muitas lições úteis para o futuro.

A amamentação não começou bem logo nos primeiros dias de vida da B., ainda na maternidade. Devido a uma má pega da bebé, como mais tarde me foi explicado, surgiram macerações e feridas que me provocavam muita dor quando dava de mamar. Também, de acordo com o que mais tarde me foi transmitido, devido à má pega, a bebé não conseguia retirar todo o leite que necessitava para se alimentar. A bebé chorava muito e eu não sabia porquê.

Os comentários habituais não se fizeram esperar: “Secalhar tem fome”, “Será que tens leite?”, “Secalhar o teu leite é fraco”… Infelizmente a ideia (errada) de que o leite materno não é suficiente em qualidade ou em quantidade para os bebés está culturalmente enraizada no nosso país. A verdade é que, tanto quanto sei, são extremamente raros os casos em que as dificuldades da amamentação se prendem com a insuficiência do leite materno. Já a má pega ou o mau posicionamento do bebé na mama são muito frequentemente causadores das primeiras dificuldades sentidas pelas mães.

O nosso problema não foi, contudo, detetado e corrigido na maternidade, onde me recomendaram a introdução de chucha, do mamilo de silicone para evitar novas macerações e de leite artificial, como suplemento ao leite materno. A minha falta de experiência e informação, e querendo apenas o melhor para a minha bebé, levou-me a aceder a todas aquelas propostas, na esperança de que nos ajudassem.

Já em casa a situação piorou e comecei a sangrar quando amamentava. Na linha telefónica de apoio à amamentação do hospital onde a B. nasceu foi-me recomendado extrair o leite materno com bomba enquanto continuasse a sangrar e não dar de mamar diretamente à bebé. O pai correu a comprar uma máquina de extração de leite que não tínhamos…

Ainda na primeira semana de vida da B. fiz uma mastite: febre, dores no corpo, como se de uma gripe se tratasse, e muita dor na mama. Hoje atribuo-a a uma sobre estimulação da mama motivada pela utilização, talvez excessiva, da máquina de extração de leite, que interfere com o processo natural de produção de leite materno, desencadeado pelo bebé.

O meu obstetra prescreveu antibiótico e, nessa ida ao hospital, cruzei-me, felizmente, com a enfermeira que me tinha acompanhado na gravidez, especialista em amamentação, com quem partilhei as minhas dificuldades e que se prontificou a ajudar.

A sua ajuda seria, de facto, preciosa. Viu a B. mamar, corrigiu a pega e a posição da bebé, desaconselhou o mamilo de silicone, tranquilizou-me quanto à possibilidade de amamentar tendo uma mastite [claro que, nem por isso, deixei de ouvir opiniões contrárias, mas achei que devia confiar naquela pessoa e não as ouvi] e conversou bastante comigo. A verdade é que nesta fase, nós mães, principalmente as de primeira viagem, precisamos muito que alguém, que nos transmita confiança, converse connosco, que nos oiça, que nos esclareça as dúvidas e nos torne, também, um pouco mais confiantes. Depois deste encontro tudo melhorou: corrigida a pega e a posição da bebé a mamar, as macerações desapareceram e aos poucos eliminámos o leite artificial. A bebé chorava menos…

Ainda assim, os desafios não terminaram. A eles volto mais à frente.

Antes faço aqui um parêntesis para sublinhar que, logo nesta primeira semana de vida da B., tive a perceção que muitos dos profissionais de saúde que lidam com bebés e recém-mães não têm a informação que seria desejável sobre o tema da amamentação. Incompreensivelmente, como mais tarde consegui perceber, os conteúdos que integram a formação recebida, nos seus cursos, por médicos, incluindo obstetras e pediatras, e por enfermeiros, inclusivamente os que fazem a sua especialidade em saúde materna e obstétrica, são, no que respeita à amamentação, bastante superficiais e insuficientes. Na verdade, os profissionais que procuram saber mais sobre esta matéria têm de procurar cursos de formação específicos em aconselhamento em aleitamento materno, que proporcionam a aquisição de competências adicionais para o exercício da sua atividade profissional, não conferindo qualquer grau académico ou habilitação para a prática de uma profissão distinta. Na minha perspetiva apenas de mãe, penso que esta realidade é um dos fatores que leva a que as mães que encontram dificuldades na amamentação não recebam todo o apoio que necessitam destes profissionais.

Às mães que lêem este texto gostaria de dizer-lhes que, sentindo-se desapoiadas, procurem até encontrar a pessoa que percebam que vos pode efetivamente ajudar com a técnica da amamentação, mas também que vos faça sentir mais confiantes, que vos oiça e com quem se identifiquem. Felizmente eu encontrei essa pessoa à primeira tentativa, mas nem sempre acontece assim.

Voltando à minha história, poucos dias depois de terminar o antibiótico prescrito para a mastite voltei a não me sentir bem. Recorri novamente à enfermeira que me acompanhava, que, depois de me ver, e na ausência do meu obstetra naquele dia, me encaminhou para ginecologista especialista em doenças da mama. Nesse mesmo dia, tinha a B. 20 dias de vida, foi-me diagnosticado um abcesso mamário e prescrito novo antibiótico para tentar solucionar o problema enquanto não chegava o resultado da análise que permitiria apurar qual a bactéria que provocara a infeção.

O antibiótico não foi, contudo, suficiente e fui submetida a cirurgia para drenagem do abcesso ainda a B. não tinha um mês. No dia da cirurgia saiu o resultado da análise que concluía que o abcesso tinha sido provocado por uma bactéria multirresistente a vários antibióticos [não me esquecerei do nome da bactéria “MRSA”, Staphylococcus Aureus Resistente à Meticilina, que, como mais tarde me foi explicado, apenas se terá conseguido alojar no meu organismo devido à prévia existência de uma infeção, no meu caso a mastite] e, por esse motivo, foi-me dito que não podia continuar a amamentar devido aos riscos para a bebé, inerentes à bactéria, e que ficaria internada 10 dias sem a minha bebé. Naquele momento senti-me sem chão…

Aquele primeiro entendimento não foi, felizmente, consensual e após a cirurgia foi-me transmitido que o parecer da pediatra de serviço no hospital era no sentido de inexistirem riscos para a B. em manter a amamentação e em ficar comigo durante o período de internamento.

Imaginem-se as dúvidas que passam na cabeça de uma mãe numa situação como esta, ouvindo opiniões totalmente contrárias no espaço de horas…Também nesta fase o aconselhamento da enfermeira de quem aqui tenho vindo a falar foi fundamental.

Assim, não obstante todos os obstáculos, dúvidas e opiniões médicas divergentes, mantive a amamentação após a cirurgia sem qualquer problema para a pequena B.

Quando parecia que já não podia acontecer mais nada, no segundo mês de vida da B., novo desafio. Foi-me diagnosticada uma segunda mastite. Fui de imediato medicada e, por se encontrar numa fase inicial, a mastite foi rapidamente tratada com menos dor e mau estar do que a primeira. O médico assegurou não existirem riscos para a bebé em manter a amamentação e assim aconteceu.

Desde aí o caminho tornou-se, finalmente, mais fácil. As idas frequentes ao hospital terminaram. A B. continuou a mamar, sem mais percalços, até ter sensivelmente um ano, permitindo-me aprender quase tudo o que sei sobre a amamentação.

A bebé I. nasceu em maio de 2018 e teve a sorte de mana mais velha ter ajudado a mãe a desbravar o caminho da amamentação.

Além da experiência que já tinha, a informação partilhada sobre o tema da amamentação durante as aulas de exercício físico de pré-parto, que frequentei no Centro Pré e Pós Parto, as conversas com outras mães, e o que fui lendo sobre este assunto, foram fundamentais para perceber os muitos erros que tinha cometido no caso da B. [a má pega, a utilização precoce da máquina de extração de leite, que provocou uma produção excessiva de leite, provavelmente contribuindo para a formação das mastites, estar demasiado agarrada a horários para amamentar e não fazer livre demanda, principalmente durante a noite, quando a produção é maior…], e evitá-los, permitindo que a viagem da amamentação com a bebé I. tenha sido muito diferente e sem percalços de maior.

Felizmente não houve dificuldades com a pega e não houve mastites. A bebé I. foi amamentada em exclusivo até à introdução da alimentação complementar e hoje, com 16 meses, ainda mama, sem termos sentido necessidade de introduzir o leite artificial.

Contada esta minha viagem, termino deixando um grande beijinho a todas as mães que passaram por experiências desafiantes com a amamentação, especialmente àquelas que não encontraram o apoio que necessitavam e mereciam, e um obrigada a todas as pessoas que fazem parte desta minha história e que deram o melhor de si para que ela tivesse um final feliz.

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